A cabeça de quem pensa em morrer
Não sei qual é o nome mais correto. Talvez "suicida" seja quem morre pelo suicídio. Talvez seja também quem convive com a ideia constante de morrer. Não importa tanto a definição. Importa compreender o que acontece dentro da mente de alguém que, em determinados momentos da vida, acredita que a morte pode ser uma saída.
Posso falar apenas da minha experiência.
Durante muitos anos, minha cabeça foi uma cabeça de morte.
Dependendo do tamanho da dor, a vontade de morrer surgia instantaneamente. Bastava um problema crescer além do que eu conseguia suportar para que, em poucos minutos, minha mente construísse um roteiro completo: data, lugar, método. A velocidade desse processo sempre me assustou. Enquanto outras pessoas procuravam soluções, minha primeira resposta era imaginar o fim.
A primeira vez que tentei tirar minha própria vida foi aos vinte anos, no início da faculdade. Comprei veneno para rato e preparei tudo. Um amigo apareceu exatamente naquele momento. Desisti.
Hoje penso que desistir nunca foi um sinal de fraqueza. Na época, porém, parecia uma derrota. Permanecer vivo significava continuar enfrentando uma dor que eu acreditava ser insuportável.
O motivo era simples e, ao mesmo tempo, devastador: eu havia descoberto que era gay e não conseguia me aceitar.
É cruel perceber que alguém possa desejar morrer apenas por não conseguir aceitar quem é. Mas foi exatamente isso que aconteceu comigo.
O tempo passou.
Em 2007, fui encontrado pendurado na proteção de um viaduto. A situação terminou sem tragédia, graças ao acaso — ou talvez graças à vida, que insistia em me oferecer novas oportunidades quando eu já não as enxergava.
Depois vieram outros anos, outras crises e inúmeras despedidas imaginárias. Quem convive com pensamentos suicidas aprende a escrever cartas que nunca coloca no papel. São despedidas silenciosas, escritas apenas na imaginação.
Passei a perceber que minha mente funcionava de maneira diferente. Diante de qualquer dificuldade, surgia a mesma resposta: morrer parecia uma solução possível.
Eu invejava quem conseguia atravessar grandes problemas sem que a morte aparecesse como alternativa. Para mim, ela estava sempre ali, à espreita, como uma falsa promessa de descanso.
Em 2020 vivi um dos momentos mais delicados da minha vida. Descobri uma grande corrupção no trabalho em meio à pandemia. Trabalhava exaustivamente, sentia-me sozinho e completamente sem perspectivas.
Naquele dia, fui muito longe em um planejamento que hoje me parece uma cena mal escrita de um filme. Mas era real.
Foi meu cachorro, Hércules, que interrompeu aquele momento. Ele entrou correndo e pulou sobre mim. Até hoje me emociono ao lembrar disso. Há acontecimentos que desafiam qualquer explicação racional.
Com o tempo, compreendi que quem pensa em morrer quase sempre deixa sinais. Nem sempre são evidentes. Às vezes aparecem em uma frase repetida, em um isolamento cada vez maior, em um pedido de ajuda disfarçado de piada ou de silêncio. Reconhecer esses sinais pode significar salvar uma vida.
Sempre que alguém próximo morria por suicídio, eu não conseguia pensar apenas na perda daquela pessoa. Minha mente dizia que eu seria o próximo. Criava uma identificação profunda e perigosa, como se aquela história também fosse a minha.
Passei anos imaginando meu próprio velório.
Desde muito cedo eu pensava na morte. Minha primeira tentativa aconteceu aos vinte anos, mas lembro de mim ainda criança falando sobre morrer sem compreender exatamente o que aquelas palavras significavam.
A última crise aconteceu anos depois. Eu já havia perdido muito do que considerava essencial: família, trabalho, dinheiro, saúde e amizades. Sentia que todos os pilares da minha vida haviam desmoronado ao mesmo tempo.
Foi nesse período que finalmente compreendi uma verdade importante: ninguém vence uma doença emocional sozinho.
Terapia não é sinal de fraqueza.
Psiquiatria não é derrota.
Medicamentos não representam fracasso.
São recursos que permitem à mente respirar quando ela já não consegue fazê-lo sozinha.
Durante muito tempo imaginei que os pensamentos desapareceriam completamente. Hoje penso diferente.
Eles podem perder força. Podem se tornar menos frequentes. Podemos aprender a reconhecê-los antes que nos dominem. Mas talvez a maior vitória não seja eliminá-los, e sim deixar de obedecê-los.
A filosofia ensina que a vida não é a ausência da dor, mas a maneira como escolhemos atravessá-la.
Aprendi que pensamentos não são destinos. São apenas pensamentos.
Eles passam.
Nós permanecemos.
Se hoje publico este texto, não é para contar uma história triste, nem para despertar pena. Escrevo porque sei que alguém poderá se reconhecer nestas palavras.
E, se isso acontecer, quero lhe dizer o que um dia também precisei ouvir: procure ajuda.
Existe tratamento.
Existe acolhimento.
Existe recomeço.
A vida nem sempre muda de uma vez. Às vezes ela melhora aos poucos, uma conversa de cada vez, uma sessão de terapia de cada vez, um dia de cada vez.
Eu continuo em tratamento.
Continuo aprendendo.
Continuo vivendo.
E, olhando para trás, percebo que todas as vezes em que pensei que minha história havia terminado eram, na verdade, apenas capítulos difíceis de um livro que ainda estava sendo escrito.
Glauco Viana
Enviado por Glauco Viana em 15/07/2026