Sabonete Phebo
É fim de tarde,
e o mundo parece mais lento.
Tenho uns 8 anos —
idade em que o tempo ainda cabe inteiro dentro de um banho demorado.
A água cai morna,
cheirando a sabonete Phebo,
um cheiro que parece abraço antigo,
coisa de casa de vó.
De pé no banheiro,
me estico só um pouquinho
pra espiar por cima do vitrô —
os carros passam lá fora,
subindo e descendo a avenida
como se a vida tivesse pressa…
mas aqui dentro, não.
Na casa da vó,
o banho não tem urgência,
não tem batida na porta,
não tem “anda logo”.
Só o tempo quieto, escorrendo junto com a água.
Mas a barriga ronca baixinho.
Porque vó Zaqueu sempre diz
que banho de barriga cheia faz mal —
e palavra de vó
a gente não discute,
a gente guarda.
E ali, entre o cheiro do sabonete
e o barulho distante da rua,
eu existo simples,
inteira,
sem saber
que um dia isso tudo
viraria saudade.
Texto escrito pela minha sobrinha Zaquielly Sassaki
Glauco Viana
Enviado por Glauco Viana em 15/04/2026
Alterado em 15/04/2026