Familicida
Pensar que um campo inteiro da política brasileira foi capturado por uma família que vive do Estado enquanto finge combatê-lo é devastador. Não é só indignação: é tristeza profunda. Tristeza de ver o país sendo corroído por um projeto que não propõe nada além de conflito, boicote e ressentimento.
O que mais dói não são apenas os personagens no poder, mas os rostos familiares que passaram a defendê-los. Amigos de infância, parentes, irmãos, antigos amores — pessoas com quem dividi histórias, afetos e valores — hoje gritam slogans, vestem cores como fardas e tratam a política como culto. Isso não é debate. É ruptura emocional.
Assusta perceber como se normalizou o inaceitável: misoginia, racismo, homofobia, autoritarismo, a exaltação da violência, da tortura, da guerra. Tudo embalado por uma falsa moralidade religiosa e uma estética grotesca de força e virilidade. Um colosso decadente, sustentado por corrupção, abuso de poder e cinismo, que se apresenta como salvador enquanto destrói.
Não há projeto de país ali. Não há política pública, não há cuidado social, não há futuro compartilhado. Há apenas a vontade de dividir, humilhar, silenciar. E isso cansa. Cansa lutar contra algo que não quer construir nada — só impedir que outros construam.
Essa tristeza não é desistência. É lucidez dolorosa. É o luto por um país que poderia ser mais, e por relações que foram engolidas por uma máquina de ódio. Sentir isso não é fraqueza. É sinal de que ainda existe humanidade, empatia e memória.
Talvez resistir agora não seja gritar mais alto, mas não se tornar igual. Não endurecer o coração. Não aceitar o absurdo como normal. Seguir acreditando, mesmo cansado, que política também pode ser cuidado, justiça e vida digna.
Glauco Viana
Enviado por Glauco Viana em 10/02/2026