Procrastinador social
Ontem postei algo no meu status do WhatsApp demonstrando a violência permissiva que invadiu o Brasil.
Estava no celular, como todo viciado em notícias, e três manchetes, uma atrás da outra, estampavam agressões com uma frequência que nunca vi por aqui:
"Homem bate em criança que brigou com o filho."
"Vereadora é esfaqueada."
"Mulher agride passageira em avião."
Três notícias de agressão, em sequência.
Mentalizando essa quantidade de informações sanguinárias, continuei rolando — e me assustei ainda mais.
Uma ex-jornalista teve dois surtos psicóticos de homofobia. A “véia” branca, moradora de Higienópolis, resolveu curar o tédio jogando preconceito por onde passava. Chegou a ser presa, mas, ao ser liberada, deu outro show de horrores.
E assim fui navegando por desgraça atrás de desgraça, aparecendo na tela do celular como água descendo uma cachoeira.
A gente procrastina até a indignação.
Não percebemos que o Brasil — como o mundo —, pós-pandemia e após a inauguração do extremismo religioso-militar na política, virou reduto do “tudo pode”.
E tudo está podendo mesmo.
O ser humano não suportou a própria companhia durante o isolamento, e quando a pandemia acabou, foi servido a ele um combo de:
– coaching barato,
– influencers vazios,
– políticos fascistas travestidos de pastores,
– mercado virtual alienante,
– comediantes debochados...
Tudo isso por R$ 38, com direito a três meses de Amazon Prime no plano de celular.
Tudo virou do avesso — e a violência subiu ao pódio.
Detonaram a Educação.
Pediram intervenção militar.
Padre Júlio Lancellotti foi proibido de ajudar os necessitados.
A Igreja Universal invadiu comunidades ribeirinhas da Amazônia.
Os ricos passaram a ser os “gente boa”...
E todo o machismo, a homofobia, a misoginia — que antes se escondiam no armário — vieram como bomba, sem medo de serem escancaradamente ruins.
Tudo se encaixou.
A violência passou a ser vista como necessária.
Todo o progresso contra os preconceitos sociais regrediu.
Décadas de esforço de intelectuais e estudiosos foram enterradas quando o mundo passou a aplaudir o sangue derramado.
A queima de livros voltou — com direito a diretora incendiando exemplares doados pelo governo:
“Livro comunista não entra na minha escola.”
O mundo virou bagunça onde pode-se ser agressivo.
E eu sei do que estou falando.
A agressividade do outro me deixa agressivo.
A revolta contra os perseguidos gerou uma violência inédita também em mim.
Sou apenas mais um indignado com a naturalidade que a violência ganhou no mundo.
Sou apenas mais procrastinador que está vendo a Educação, a Saúde e a mente humana ser manchada de sangue, e não poder fazer mais nada além de escrever e tomar torval, escilatoplan e quetiapina.
Glauco Viana
Enviado por Glauco Viana em 19/06/2025
Alterado em 19/06/2025